
O início dos jogos
Desde o meu ensino fundamental, meus pais pareciam estar sempre no sufoco com o dinheiro, apesar de não ser verdade, e sempre economizando o máximo com tudo, inclusive com a minha educação. Eu não tinha ideia das possibilidades de inclusão, como bolsas de estudos, então sempre aceitei a minha vida ditada pelos meus pais, como todas as crianças fazem.
As mensalidades da escola eram uns 300 reais, talvez um pouco mais nos últimos anos. Apesar de eu sempre ir bem nas matérias, nunca passou pela minha mente, e nem pela mente dos meus pais, sobre tentar estudar em escolas de maior qualidade. A ideia era que ir bem na escola era o objetivo final, porque mostrava que eu estava aprendendo, e escola melhores geralmente são mais caras.
Meus pais devem ter ouvido de alguém sobre fazer prova de bolsa numa escola melhor, e eu fui lá fazer a prova. Eu gostava de fazer provas, e gosto até hoje. Gosto da dificuldade, de sentir a adrenalina, e do tudo ou nada. Acertei 24 entre 15 de matemática e 15 de português, e consegui 80% de bolsa lá. O preço ficou praticamente o mesmo que a gente estava pagando na outra escola, se não menor.
Mudei de escola. Eu estava tudo, menos preparado pra essa mudança. Havia acabado de fazer 13 anos e estava entrando no 9o ano, um ano antes do ensino médio. Dos 3 até os 12 anos eu havia estudado na mesma escola, com praticamente as mesmas pessoas. Claro que alguns saíam e outros entravam, mas o ambiente era sempre familiar pra mim.
Eu tive muita sorte de encontrar pessoas muito legais lá, mas infelizmente durou 1 ano. Novamente a pedido dos meus pais, fiz a prova pra entrar em escola técnica. Passei em diversas escolas, mas uma das opções não havia o ensino técnico. Aqui eu fiz uma das primeiras escolhas da minha vida: escolhi fazer só o ensino médio pra ter mais tempo de jogar no computador.
Jogar
Jogar era a atividade mais divertida do mundo pra mim naquela época. Existe uma curva de aprendizado enorme pra melhorar no jogo. A parte social no jogo tinha um grande valor também, porque todos os meus vários grupos de amizades que jogavam comigo também gostavam da minha presença. Entrava em chamadas com eles, na época pelo Skype, e ficávamos horas e horas jogando, todos os dias.
Eu havia sofrido bullying no fundamental, e as pessoas que eu convivia não eram meus amigos. Por exemplo, uma dessas pessoas me empurrou da escada com força e vontade, e ninguém faz isso com alguém que considera um amigo. O outro torceu o meu dedo porque eu não quis dar o meu lanche pra ele. Nunca me senti muito aceito.
O jogo me deu tudo que eu sempre quis na questão social, mesmo que eu nem soubesse o que eu queria. O jogo criou um ambiente onde as pessoas gostariam que eu estivesse presente. Ele me proporcionou um cantinho da minha vida onde eu era bem visto e aceito. As pessoas por trás da tela me acolheram de uma forma que nenhuma outra pessoa havia feito na vida real, mesmo que eu nunca as tivesse conhecido pessoalmente.
Além da parte social toda, que foi extremamente importante pra mim, o jogo também me deu contato com a dificuldade de melhorar, o medo da competição, a importância da autocrítica. E acima de tudo, ele me mostrou que a gente pode fazer tudo, tudo perfeitamente, e ainda assim dar errado. Me mostrou que às vezes a melhor decisão na hora não vai ser a melhor decisão em retrospecto, mas que isso não tira o mérito e nem a adequação da decisão errada.
O jogo me empoderou com a humildade de reconhecer os meus próprios pontos fracos, e com a habilidade de trabalhar incessantemente em cima deles. Mas o jogo também me deu a confiança de saber que por mais que tudo tenha dado errado, eu tomei a decisão certa. O jogo me deu a crença inabalável que eu consigo melhorar. O jogo me mostrou que eu consigo chegar onde eu quiser.
Joguei muito, muito league of legends. Lá na season 6 peguei Master, que era um rank antes do maior possível, chamado Challenger, onde havia apenas 200 vagas. Peguei Master com menos de 300 jogos competitivos, o que é pouco pra quem nunca havia chegado nesse rank.

Olimpíadas?
Tudo isso é absurdamente parecido com olimpíadas, tanto de ciências quanto de esportes. Existe um ranking objetivo, existe a dificuldade, existe a competição. Existem poucos ganhadores, existe o crescimento intelectual, existe a dificuldade de lidar com problemas mal definidos, existe a dedicação e a performance. Isso tudo é bem parecido com o que o Evan Chen comenta aqui sobre olimpíadas de matemática.
Ir bem numa olimpíada de matemática, ainda mais em nível internacional, requer dedicação e estudos absurdos. Você pode ter muita facilidade com matemática, mas se fizer corpo mole, não vai chegar perto do ouro na olimpíada internacional. Por isso, mirar numa boa posição e ir atrás disso é uma meta ambiciosa que requer oportunidade, tempo e dedicação de qualidade.
Uma consequência natural é que algumas pessoas fazem olimpíadas demais, se dedicando com algo que pode não fazer mais sentido pra elas. Existe sim um ganho em ter 5 medalhas de ouro ao invés de 4, mas a questão é o que você poderia estar fazendo ao invés de estudar pra quinta medalha de ouro na olimpíada internacional de matemática. Esse é o custo de oportunidade.
Assim como algumas pessoas fazem mais olimpíadas do que faz sentido pra elas, eu joguei por mais tempo do que deveria. Joguei no total uns 10 anos de league of legends, sendo que os 6 primeiros anos me deram um enorme crescimento como pessoa. Mas existe um prazer no processo de jogar, de melhorar, de ver o próprio progresso, e com isso acabei estendendo a minha estadia. Qualquer um que malha pode atestar como sentir o progresso é recompensador, e até viciante!
Eventualmente eu pensei no hiper longo prazo da minha vida, e uma das opções era realmente maximizar o tempo de jogo. Quando eu pensei a sério sobre seguir esse caminho, eu percebi como pra mim era algo tão… vazio. Não há riscos, não há dimensões diferentes, não há diversidade. Seria sempre o mesmo, até o fim da minha vida. Entendo quem ache a ideia atrativa, mas não era pra mim. Foi nessa mesma época que eu olhei onde estava. Olhei também as minhas opções pro futuro, e decidi que eu seria Challenger na vida, e não no League of Legends.
Challenger na vida
Na época eu estava com 4 reprovações na faculdade. Eu havia lido sobre intercâmbio na faculdade, sobre o intercâmbio duplo diploma, onde você consegue o diploma do Brasil e diploma da faculdade lá fora. Só naquela hora eu havia me tocado sobre como parecia algo legal. Eu nunca havia saído do país, apesar de já ter 18 anos. Sempre morei na mesma cidade, e meus pais estavam sempre perto caso tivesse algum problema. Ir pra outro país estudar seria uma oportunidade absurda de explorar o mundo, de ser independente dos meus pais e de crescer muito como pessoa.
Por outro lado, o intercâmbio é um programa de excelência. Os coordenadores do curso não querem que um aluno merda da faculdade saia do Brasil pra passar vergonha lá fora e sujar o nome da faculdade brasileira. A excelência acadêmica é um ótimo fator pra analisar essa probabilidade, o que era horrível pra mim. Na época eu havia uma média menor que 6.0, além de 4 reprovações no histórico. Isso era longe de qualquer excelência acadêmica.
Nesse momento eu tinha duas escolhas. Eu poderia jogar 2 anos da graduação fora e recomeçar a faculdade do zero com o objetivo de ser aprovado no duplo diploma. Assim eu poderia fazer todas as matérias de novo e ir melhor. Ou eu poderia tentar o duplo diploma mesmo com o histórico sujo de reprovações e notas baixas. A primeira opção era mais segura, mas custaria na prática 2 anos de vida - o tempo de um mestrado. A segunda opção era mais arriscada, mas mais rápida.
Escolhi seguir com o histórico sujo. Eu não quis recomeçar porque eu queria aprender a lidar com os erros que eu faço durante a vida. Eu não quis me dar o luxo de ter algo tão poderoso quanto o poder de apagar o seu passado, mesmo sabendo que eu poderia ser julgado e afetado por essas notas. Mas a crença mais importante foi que havia tempo pra virar o jogo, que apesar do histórico sujo, existia um mundo onde eu conseguiria o duplo diploma. E isso só existiu porque eu tenho a crença inabalável na minha capacidade.
Haviam 2 semestres antes de começar a seleção pro intercâmbio, e em 1 ano dá pra fazer muita coisa. Peguei 12 matérias pra fazer em um semestre, e passei em todas. No semestre seguinte, peguei 10 matérias, e ainda estava trabalhando como monitor na faculdade, professor num cursinho popular e fazendo iniciação científica. Mesmo com todas essas atividades ao mesmo tempo, ainda assim consegui 7,5 de média, uma média que nunca havia aparecido no meu histórico escolar.
Eu joguei da melhor forma possível. É óbvio que em 300 ocasiões eu poderia ter feito melhor, principalmente olhando em retrospectiva, mas eu estava com a consciência tranquila que eu havia feito o meu melhor dado o que eu sabia em cada momento. E, como nos jogos, eu ainda assim sabia que tudo poderia dar errado. Eu sabia que o intercâmbio poderia não dar certo, eu sabia que a escola lá fora poderia me reprovar pelo meu passado. Eu sabia que eu poderia ser julgado e afetado pelo meu passado, o próprio passado que eu escolhi manter. E eu estava preparado pra que tudo desse errado.
No final do ano saíram os resultados do intercâmbio. Mesmo com tudo podendo dar errado, deu certo.
Por um lado é bom validar o sentimento do quanto eu consigo e que esse processo seletivo não foi exceção. Mas por outro lado, quando a gente reconhece que a jogada perfeita não resulta em vitória, a gente também tem a humildade de reconhecer o quanto estava fora do nosso controle e o quanto a gente deve ser grato pelas oportunidades que outras pessoas nos deram. Seja a minha família e amigos dando apoio pra tudo, o meu professor orientador Fábio Cozman relevando meu histórico sujo de reprovações e aceitando me orientar na Iniciação Científica, e até mesmo a sorte de eu ter aprendido tanto com os jogos.
Desabafo - A realidade
Apesar de toda a felicidade e orgulho no texto acima, a realidade foi mais difícil e complexa.
A real é que durante muito tempo da minha vida eu senti que eu tinha um potencial desperdiçado. Eu sentia que eu era bom, mas tudo que eu havia conquistado não refletia no que eu conseguia. Eu sentia que as minhas conquistas estavam muito abaixo do que eu conseguiria alcançar. É um complexo de superioridade que aparece forte nesse texto.
Isso começou a aparecer bem pesado entre o final do ensino médio e o início da faculdade. Eu olhava pessoas incríveis pelo mundo. Olhava a biografia delas. Olhava o CV da galera que tinha uma idade parecida. E era tão impressionante o tanto que eles conquistaram, sendo tão novos.
Eu queria muito, muito, muito ser uma dessas pessoas. Ser alguém como Artur Avila e começar o doutorado aos 19 anos. Ser como Terence Tao e ganhar uma medalha de ouro na olimpíada internacional de matemática aos 13 anos. Ser como Daniel Silva Ribeiro e passar no ITA, passar na École Polytechnique, e depois trabalhar na Microsoft, Amazon, Apple, e Google. Ser como Aayush Gupta e criar o Auto-Latex equations, que tem mais de 10M downloads hoje em dia, antes mesmo de ter um diploma. Ser como betaveros e ter várias medalhas em olimpíadas de matemática e informática, além de conseguir #1 no advent of code desde 2019.
Era foda pra mim porque eu queria, com meus 17 anos, estar onde essas pessoas estavam. Mas até ter 17 anos, havia poucas variáveis que eu poderia controlar.
Eu queria ir fazer faculdade fora, em um país de primeiro mundo. Foi uma possibilidade que eu descartei rápido porque meus pais não teriam grana pra pagar, mas ninguém nunca me falou de bolsas de excelência pra alunos estrangeiros em outros países. E eu nunca tinha ido pesquisar.
Eu queria ter estudado mais pra olimpíadas e participado mais a sério delas, mas meus pais tinham muito medo de eu ir sozinho pra aulas de olimpíadas e voltar pra casa quando eu estava no último ano do ensino fundamental. E eu nunca tinha ido buscar preparações online, como o Art of Problem Solving.
E, mais do que tudo, eu queria ter gastado menos tempo jogando tanto lol. Meu ensino médio todo tinha sido definido por maximizar o tempo de jogo. Todas as minhas escolhas durante o ensino médio foram pra jogar o maior tempo possível. Foi uma das poucas escolhas com grande influência que eu havia tomado até então, e como eu me arrependi dela. Eu via as horas de jogo como tempo perdido, o que contribuiu mais ainda pro meu sentimento de potencial desperdiçado.
Tive durante muito tempo um grande peso por todo o passado que já tinha acontecido. Um peso grande por culpar o meu eu passado pela minha situação atual. Um peso por eu ter evitado o trabalho, a dor e o sacrifício tão grande de assumir a responsabilidade pela minha vida. Um peso por me culpar por tudo que eu fiz, e também não fiz.
Os três primeiros semestres da faculdade acabaram sendo difíceis por isso. Relato melhor em outros textos, mas foi uma época onde eu me senti sem direção nenhuma, e eu não sabia como explorar pra descobrir a minha direção.
No 4o semestre eu virei a chave e mirei muito, muito, muito alto. Eu havia cansado de culpar as pessoas por onde eu estava, e decidi tomar as rédeas da minha vida pro futuro. Sabendo que a vida dali pra frente teria muito mais influência e responsabilidade minha do que de qualquer pessoa.
O dedo que aponta o culpado da nossa vida também dá poder ao culpado. O dedo que culpava os meus pais e tirava toda a minha responsabilidade era o mesmo dedo que dava poder a eles sobre as decisões da minha vida. Era o mesmo dedo que me colocava por baixo de todas as decisões que eles tomavam.
Desde que eu assumi a responsabilidade pela minha vida, muita coisa deu errado de lá pra cá, mas sucessos absurdos aconteceram. Durante todo esse processo, eu me arrependi muito do tanto que joguei lolzinho, principalmente pelo custo de oportunidade de não ter feito nada melhor com o meu tempo.
Só recentemente, enquanto eu estava refletindo sobre a minha crença inabalável que eu percebi como o meu sucesso graças ao jogos influenciaram o meu carácter nesse aspecto tão essencial na minha vida.
Finalizando
Hoje em dia o sucesso, medido de acordo com a minha fita métrica, continua. Tenho amizades excelentes, estou com notas altas na faculdade em outro país (finalmente!), tenho dinheiro pra me sustentar, trabalho nas empresas dos meus sonhos, aprendo piano, malho consistentemente, vejo animes legais, passo vergonha aprendendo a cantar… A vida está excelente e poderia parar por aqui, mas eu ainda sonho alto e quero muito mais.
Mesmo que não tenha sido sempre assim, olhando pra trás hoje eu só tenho a agradecer aos jogos por terem me dado a habilidade de sonhar tão alto, e de alcançar esses sonhos inalcançáveis. Obrigado, querido lolzinho.
E você, qual é o seu lolzinho?