Introdução
Frequentemente me perguntam sobre como foi minha dupla diplomação na França. Finalmente vamos ter um texto para responder tudo.
Minha trajetória foi diferente do normal:
- Fiz Poli USP e meu intercâmbio foi pra Télécom Paris. Consegui passar no processo seletivo mesmo com 4 reprovações e 6.4 de média suja.
- Fui sem bolsa, meus pais gastaram uns 4000 ~ 5000 euros nos primeiros 6 meses. Depois disso eu consegui trabalhar e me sustentar sozinho. No final do intercâmbio, ganhava quase 9000 dólares por mês.
- Durante meu tempo na França, consegui trabalhar na Amazon, na Google e remoto para os Estados Unidos.
O texto vai ser estupidamente longo. Não se sintam pressionados a ler tudo - pode pular pra seção que for mais relevante.
Mini glossário
-
CRINT - comissão de relações internacionais da Poli USP. Eles organizam os processos seletivos para intercâmbio, fazem as entrevistas, conversam com as universidades no exterior, etc.
-
DD - duplo diploma. É um intercâmbio em que você ganha o diploma da faculdade de lá fora também.
-
IC - iniciação científica.
-
Poli USP ou Poli - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Devo fazer intercâmbio?
Não posso responder por você, mas posso te dar alguns tópicos para pensar. Lembrando que intercâmbio não te garante nada. Assim como estudar na USP não garante nada, assim como fazer uma pós graduação não garante nada. Tem que pensar mais a fundo ao invés de se prender em garantias.
Grana
Grana é difícil. Eu sou uma pessoa extremamente econômica, e ainda assim gastei 600 euros por mês no primeiro ano na França. Alguns exemplos de atitudes que eu tive:
- No intercâmbio inteiro, cortei meu cabelo sozinho. Como todo mundo ganha bem (salário mínimo francês > 1800 euros por mês), significa que tudo que envolve uma pessoa é caro.
- Eu fazia muito mercado, mas pra ir no mais barato da região, eu pegava um ônibus de 1h pra ir e 1h pra voltar, com uma quantidade insalubre de sacolas pesadas na volta.
- Comecei a malhar (obrigado Filipe), mas com calistenia ao invés de academia pra não pagar mensalidades.
- Minha pele é bem seca (tenho dermatite atópica) e isso piorou bem na França, devido ao calcário na água. Porém hidratantes bons são caros. Eu esperei ter cortes bem profundos na minha pele por estar extremamente seco, antes de me render e comprar um hidratante.
- Fui convencido pela minha família, que sabiamente disseram: “se tiver que ir pro hospital por uma infecção, vai sair bem mais caro”.
Dito isso, o lado bom de ser frutal e aguentar o início, é que você consegue terminar o intercâmbio em um saldo positivo. É possível também estender o intercâmbio pra estagiar e com isso se sustentar. Meus empregos foram:
- Depois de 6 meses de intercâmbio: dei aula no Chegg ensinando matemática, programação, estatística, etc pra gringos. Consegui uns 900 dólares por mês (infelizmente essa parte do Chegg não existe mais, rip)
- Depois de 12 meses de intercâmbio: estagiei na PriceHubble, 1600 euros por mês.
- Depois de 18 meses de intercâmbio: estagiei na Amazon, 2400 euros por mês.
- Depois de 24 meses de intercâmbio: estagiei na Google, 4600 euros por mês.
- Depois de 30 meses de intercâmbio: consegui um trampo remoto pra gringa, 8750 dólares por mês.
Como um bom tio Patinhas, consegui economizar uma boa grana no final das contas. Meus pais me sustentaram com uns 4000 ~ 5000 euros iniciais até eu conseguir dar aula no Chegg, e depois disso eu consegui me sustentar e guardar dinheiro.
Distância
Muito provavelmente, você vai estar longe de todos que já conheceu e convive. Por um lado isso é bom: você vai conhecer novas pessoas, vai aprender a ser mais desenrolado e vai ter histórias divertidas pra contar.
Mas por outro lado, isso não é pra todo mundo. É bem possível ficar isolado socialmente e entrar em depressão, principalmente no inverno europeu onde é muito frio e o dia dura pouco.
Imagina você fazendo um estágio. Expediente começa 9h, você consegue acordar às 8h pra chegar lá presencialmente. Mas ainda está um breu lá fora - parece que é 3 da manhã. Você não se enturmou de fato com seus colegas de trabalho. Há respeito e todos fazem um bom trabalho, mas não há conexão. Seu expediente termina às 17h, e novamente está um breu lá fora.
É bem importante ter em mente que fazer um intercâmbio não vai ser só flores. Vai ser um dos momentos com mais perrengues da sua vida, em todas as áreas. É importante entender como e quanto o intercâmbio pode ser difícil, pra você não desistir no meio ou então nem ir.
Minha opinião
Dito isso, ainda recomendo o intercâmbio pra quem puder.
- É uma das poucas épocas da vida que dá pra explorar o mundo sem ter 1000 responsabilidades diferentes.
- A galera que vai pro DD (dupla diplomação) tende a ser a nata da nata. Melhores pessoas das melhores universidades do Brasil (e outros países).
- Networking + explorar a vida + oportunidade de trabalhar lá ou remoto ou cidadania vale mais a pena do que acelerar a entrada no mercado de trabalho.
Como eu disse antes, serviços são caros. Diversos amigos meus conseguiram salários próximos de 4000 euros por mês voltando pra França depois de formados. A cidadania é facilitada.
De novo, nada garante nada, mas saber que posso voltar pra França e tentar buscar um bom emprego por lá, ganhando em euro, me tranquiliza muito no meu dia a dia.
Mesmo ficando no Brasil, as poucas empresas que sabem do DD tendem a ser boas empresas. Por exemplo, outro dia teve encontro na Enter (a mais recente unicórnio brasileira) para quem estudou na França.
Tem que ter coragem pra enfrentar tantos perrengues e possivelmente entrar atrasado no mercado de trabalho. Mas, pelo menos pra mim, ir pro intercâmbio foi uma das melhores decisões da minha vida.
O processo seletivo da Poli USP
Pra começar, muitos institutos e universidades não deixariam eu me candidatar pro DD, tanto por eu já ter reprovações no histórico quanto por ter uma nota baixa. Felizmente, a Poli USP é um pouco mais flexível nesse quesito.
Na Poli USP há 2 ou 3 etapas para o DD:
- Classificação de nota pelo índice CRINT
- Análise do Currículo, do Plano Profissional e entrevista com professores da CRINT
- (opcional, depende da faculdade no exterior) entrevistas e avaliações feitas pela faculdade que você vai
A primeira etapa
Na primeira etapa, eles pegam o seu histórico escolar e calculam uma média nova a partir dele. Essa média conta, por exemplo:
- Suas notas (duh)
- Reprovações, trancamentos e disciplinas não cursadas
- Se você cursou todas as disciplinas no período ideal
Um exemplo interessante é se você pega 4 matérias por semestre na Poli, ao invés do normal entre 6 a 9. Pegando menos matérias, é esperado que você tenha uma média maior e menos reprovações, mas como você não cursou as disciplinas no período ideal (ex.: cursar Cálculo 3 no terceiro semestre), e como vai ter disciplinas não cursadas (que deveriam ter sido feitas mas não foram), isso vai prejudicar o seu índice CRINT - o que é justo.
A ideia do índice é ver detalhes que apenas a média não vê.
Infelizmente, nessa etapa é possível eles te cortarem apenas por nota. Por outro lado, frequentemente há outros alunos com nota baixa que passaram no processo seletivo todo.
Abaixo é uma tabela da própria CRINT com a menor média de quem conseguiu DD, separado por curso e por ano. Teve gente com 5,6 de média que conseguiu passar! Claro que não garante a vaga - se alguém se inscreveu em apenas 1 opção e ela é mega concorrida, possivelmente alguém com 7,5 de média não passou no DD.
| Curso | 2016 | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 |
|---|---|---|---|---|---|
| Ambiental | — | 5,6 | 6,5 | 6,2 | 6,4 |
| Civil | 6,6 | 6,8 | 6,7 | 6,2 | 6,3 |
| Comp (coop) | 6,7 | 6,7 | — | 6,4 | 8,2 |
| Comp (sem) | — | — | 5,9 | 6,5 | 5,9 |
| Elétrica | — | 6,4 | 6,0 | 6,3 | 5,6 |
| Automação | 6,7 | 6,7 | — | — | 6,3 |
| Energia | — | — | — | — | 5,9 |
| Sistemas | — | — | — | — | 5,6 |
| Teleco | — | — | — | — | 7,8 |
| Mecânica | 6,4 | 6,3 | 6,2 | 6,2 | 6,0 |
| Mecatrônica | 6,3 | 6,3 | 5,8 | 6,3 | 6,3 |
| Naval | 6,5 | 5,8 | 6,6 | 6,1 | 7,5 |
| Produção | 6,5 | 6,7 | 6,7 | 6,6 | 6,3 |
| Materiais/Metal | 6,6 | 6,1 | 6,3 | 6,2 | 6,3 |
| Minas/Petróleo | — | 7,0 | 6,9 | 7,5 | 7,7 |
| Química | 6,5 | 7,0 | 6,3 | 6,2 | 6,3 |
Note porém que isso é a média suja usual, até 2020 não havia o índice CRINT. Outro ponto relevante é que ao passar, você garante a vaga, mas não necessariamente uma bolsa.
Como se preparar para a primeira etapa: aqui é a dica clássica de ir bem nas matérias. Nota alta, não reprovar, não trancar, não atrasar o curso. É a dica chata, esperada e previsível, mas relevante.
A segunda etapa
A segunda etapa é “Análise do Currículo, do Plano Profissional e entrevista com professores da CRINT”.
Vamos dar um passo pra trás e pensar: o que os professores estão buscando?
Um dos critérios mais relevantes é evitar passar vergonha em nível internacional. Pense que a CRINT como um todo teve que fazer um puta trabalho burocrático de contactar universidades ao redor do mundo e convencê-los a fazer um outro puta trabalho burocrático de formalizar um acordo bilateral de intercâmbio, com possibilidade de emitir um diploma que é válido no país todo.
Imagina você ter todo esse trabalho, ter feito outras pessoas terem um monte de trabalho, e você manda um Zé Ruela que reprova em tudo e desiste no meio do intercâmbio? Que chato isso seria.
Por isso, a primeira etapa é excelência acadêmica. Um bom indicador que você vai conseguir sobreviver ao intercâmbio (que não são só flores) é você ter boas notas na faculdade. Mas obviamente isso também não é tudo - por isso a segunda etapa.
Aqui muita gente me pergunta:
- Preciso fazer IC para conseguir o DD?
- Tudo bem trabalhar ao invés de fazer IC?
- Preciso fazer atividades extracurriculares?
- Preciso fazer algo que não quero só pra por no currículo?
- Preciso comer vidro durante a graduação inteira?
Tirando comer vidro (que não precisa), tudo isso depende. O maior ponto da segunda etapa é ver sua motivação interna pra aguentar todos os perrengues de aguentar 2 anos em outro país, um país com outra língua, outra cultura e provavelmente longe da sua família.
Aqui o teste é ver se o que você já fez (currículo) está alinhado com a escolha da faculdade no exterior e com o seu futuro (plano profissional). O teste é ver se você sabe o que quer.
Muita gente se engana em pensar que isso significa ter que já saber o que quer, mas não precisa. O importante é ter uma hipótese coerente. Vamos para o meu exemplo.
Eu honestamente não sabia direito o que eu queria pra vida. Um dos motivos de eu ter feito engenharia elétrica era saber que era uma das engenharias mais amplas em questão de mercado de trabalho, então era fácil mudar de ideia. Quando isso acontece, é bem relevante explorar diferentes atividades pra ver o que gosta.
Quando fui aplicar pro DD, eu já tinha feito IC, monitoria e tinha sido professor e monitor em cursinhos populares, como o Cursinho da FGV e o Cursinho da Poli.
Vocês conseguem ver como falar “quero fazer doutorado e ser professor universitário para pesquisar e dar aula” fecha muito bem a história que já foi? Mesmo que não seja necessariamente verdade.
Nisso fica fácil escrever o plano profissional - basta pensar em seguir essa história do passado no futuro. No meu caso, se eu quisesse seguir no mundo acadêmico, eu teria que pensar em questões como:
- Que área de pesquisa eu quero seguir?
- Como ir pro DD ajuda na minha área de pesquisa? Em particular, o que tem lá que não tem aqui?
- Como ir para o país que selecionei no DD me ajudaria?
- Por que não ficar no Brasil
Outro ponto também, quase que básico em qualquer processo seletivo, é que é um teste de interesse. O quão de esforço você está colocando nisso? Será que é o que você realmente quer? Uma forma fácil de demonstrar esforço é pesquisando a fundo. Mostre que você sabe como vai ser a faculdade nos 2 anos de lá (ex.: Dá pra escolher uma ênfase? O curso é bimestral, semestre, anual? Tem férias? Dá pra estagiar? Dá pra fazer pesquisa?), que você sabe a cultura do país que pretende ir, que você sabe algumas notícias recentes.
Finalmente, a entrevista com a professores da CRINT. É uma oportunidade de eles entrarem mais a fundo tanto no seu currículo quanto no seu plano profissional, tanto para confirmar o que está escrito quanto para poder falar de detalhes que não coube no texto. Recomendo pensar em possíveis perguntas que eles fariam e treinar a resposta pra elas. Não precisa ter a resposta perfeita, mas só de pensar em cenários e se planejar ajuda a não ser pego desprevenido.
Um exemplo que falei na entrevista mas não no currículo e nem no plano profissional: eu fiz 12 matérias em 1 semestre, e passei em tudo. É uma carga horária rara de se ver, e passar em tudo isso é mais raro ainda, mas é difícil encaixar isso no texto do plano profissional ou do currículo.
Meu plano profissional que enviei na época está abaixo. Note que na época eu tinha escolhido a ENSAE como primeira opção, mas depois troquei pra Télécom Paris - e tudo bem.
Escolhi a Télécom Paris porque ela era uma das poucas que tinham especialização em inteligência artificial, ciência de dados e afins (lembrem-se que comecei meu intercâmbio no meio da pandemia, antes do ChatGPT lançar). Além disso, ela parecia ser um pouco maior e com mais opções do que a ENSAE, que também tinha especializações parecidas mas muito focada em estatística.
Plano profissional
Eu, Vinicius Akira Imaizumi, aluno do 6º semestre do curso de Engenharia Elétrica da Poli-USP, venho por meio deste documento expressar as razões que me motivaram a realizar a complementação dos meus estudos na França, em particular nas 5 opções que escolhi.Eu escolhi a França devido a alta valorização da matemática e da educação na cultura francesa. Eu sempre tive um contato muito próximo com a matemática, por isso participei da Olimpíada Brasileira de Matemáticas das Escolas Públicas durante o ensino médio, obtendo uma medalha de prata e duas menções honrosas.
Hoje em dia eu mantenho esse contato com a minha graduação na Poli em Engenharia Elétrica e a minha Iniciação Científica, além de lecionar matemática no Cursinho da FGV com o objetivo de mostrar a beleza da matemática e mostrar que a educação é a melhor forma de melhorar a sua vida.
Eu tenho como primeira opção a École Nationale de la Statistique et de l’Administration Économique (ENSAE) ParisTech. Eu tenho um grande interesse nas áreas de estatística, simulação computacional, modelos numéricos, inteligência artificial, Machine Learning e ciência de dados. Todas essas áreas exigem um bom entendimento de estatística, que é uma das especialidades da ENSAE.
Dentro da minha graduação eu busquei disciplinas optativas sobre o tema, como PMR3508 - Reconhecimento de Padrões e Visão Computacional, que serei monitor neste oferecimento de 2019, PTC3214 - Realidade e Probabilidade: Simulações para Compreender o Mundo e o popular curso MOOC do Cousera, Machine Learning. Não me limitei às disciplinas e também comecei uma iniciação científica sobre ferramentas de interpretabilidade para modelos caixa preta, ao mesmo tempo que pude auxiliar uma mestranda com processamento natural de linguagem.
A grade curricular da ENSAE possui muitos tópicos que eu tenho grande interesse, mas eles não são vistos com tanta profundidade na Poli, tanto na graduação quanto na pós graduação. Por isso, acredito que a minha formação será bem complementada com os meus estudos na ENSAE.
Em detalhes, a grade curricular do segundo ano é focada em estatística, econometria, microeconomia e macroeconomia, que são os pilares da ENSAE. Eu acredito que aprender sobre economia será de extrema relevância na minha formação, pois são exemplos claros onde há aplicação direta da estatística, com aplicação e análise de modelos, análise da qualidade da informação disponível, etc. Em comparação com a Poli, temos apenas 2 cursos relacionados que estão disponíveis para a Engenharia Elétrica: PRO3200 - Estatística e PRO3410 - Fundamentos de Economia e Administração.
O terceiro ano da ENSAE é focado em uma especialização. Em particular, eu estou interessado na especialização em “Data Science, statistique & apprentissage”. Essa especialização tem como foco disciplinas de matemática aplicada (como probabilidade e estatística) e informática. Além disso, haverá aplicações em diferentes domínios, como finanças, seguros, ciências sociais e biologia.
Em comparação com a Poli, há a disciplina optativa que eu serei monitor, PMR3508 - Reconhecimento de Padrões e Visão Computacional, que está fortemente relacionada com essa especialização. Porém as outras disciplinas estão distribuídas entre as ênfases da Engenharia Elétrica (e portanto mais restritas) ou estão disponíveis apenas para a pós-graduação. Alguns exemplos:
- PSI3471 - Fundamentos de Sistemas Eletrônicos Inteligentes (ênfase em eletrônica)
- PSI3472 - Concepção e Implementação de Sistemas Eletrônicos Inteligentes (ênfase em eletrônica)
- PCS3438 - Inteligência Artificial (ênfase em computação)
- PTC3405 - Processos Estocásticos (ênfase em telecomunicações)
- PTC3451 - Processamento Estatístico e Adaptativo (ênfase em telecomunicações)
- PCS5782 - Agrupamento de Dados e Aplicações (pós graduação)
- PCS5024 - Aprendizado Estatístico (pós graduação)
Eu tenho bastante interesse na área de pesquisa, que demonstro com a minha IC em andamento sobre ferramentas de interpretabilidade para modelos caixa preta. Na ENSAE eu vejo um grande espaço para pesquisa pois há uma área de pesquisa em estatística com diversos projetos que se relacionam desde o tratamento e disponibilização de dados até aplicações diretas de modelos em finanças, previsão do tempo, transporte otimizado, entre outros. A ENSAE é um dos membros do CREST (Center for Research in Economics and Statistics) que está relacionada aos projetos citados anteriormente (como o CASD e o WINnERS).
Um fato muito interessante da ENSAE que não acontece na Poli é a possibilidade dos professores serem pessoas de alto nível do mundo empresarial, não necessariamente pesquisadores. Há professores bem renomeados, como por exemplo a Anna Simoni que recebeu uma medalha de bronze do CNRS e o Marco Cuturi que além de lecionar também trabalha no Google Brain.
Em resumo, a ENSAE possui uma grade curricular complementar em relação à Poli para aprender aprender profundamente sobre estatística, inteligência artificial, Machine Learning e ciência de dados. Ela está diretamente relacionada com a pesquisa acadêmica e possui professores excelentes tanto do mundo acadêmico quanto do mundo empresarial. Por isso, acredito que a ENSAE seja a melhor opção para me especializar nas minhas áreas de interesse, ao mesmo tempo que será possível participar de pesquisas de altíssimo nível com pesquisadores renomados e também aprender sobre trabalhar e pesquisar fora da academia.
Eu tenho como segunda opção a CentraleSupélec. De forma parecida com a ENSAE, há uma especialização no terceiro ano. O segundo ano da Supélec é mais generalista do que da ENSAE, cobrindo tópicos da engenharia elétrica como processamento de sinais, eletrônica, automação e TI. Tal base mais generalista é interessante pois são vários tópicos do dia a dia de um engenheiro elétrico, inclusive muitas disciplinas similares estão na grade curricular da Poli. Fatos que eu gostei sobre a CentraleSupélec são os cursos para desenvolvimento de projetos e trabalho em equipe e a cultura de esportes.
No terceiro ano, eu estou interessado na opção “Mathématiques appliquées” pois ela abrange diversos tópicos de meu interesse, como processos estocásticos, estatística de mineração de dados e aprendizado, métodos numéricos, entre outros. Dentro dessa opção o Majeure “Data Sciences” é o mais adequado de acordo com os meus interesses, por entrar em detalhes sobre Machine Learning para visão computacional, deep learning, informação neural, entre outros.
A parte acadêmica da Supélec também está bem presente, com o grande LRI, onde se pesquisam temas do meu interesse como representação e processamento de conhecimento, mineração de dados, Machine Learning, bioinformática, entre muito outros temas. O LRI possui diversas universidades e empresas parceiras.
A CentraleSupélec possui um ensino mais abrangente no segundo ano e é focada explicitamente em ciência de dados no terceiro ano. O ensino mais abrangente me permitiria participar com mais facilidade em projetos multidisciplinares, ao mesmo tempo que o foco da especialização junto com participações no LRI me forneceriam uma boa profundidade sobre ciência de dados, o que a torna a minha segunda opção.
Como terceira opção eu escolhi a Grenoble - INP Ensimag. A Ensimag é bem especializada, pois no segundo ano já acontece a escolha da especialização. A especialização em “Modélisation mathématique, image, simulation” é a que melhor se encaixa com o meu perfil, pois há disciplinas sobre modelos numéricos, análises estatísticas, tomada de decisões, computação científica, entre outros assuntos que gosto por ter uma carga forte de matemática. Ao mesmo tempo, a Ensimag também possui espaço na grade curricular para matérias de ciências humanas e esportes, o que é importante para o desenvolvimento dos alunos fora das áreas de exatas.
A Ensimag é bem rica na pesquisa, pois possui diversas equipes em seus laboratórios e as equipes são altamente qualificadas. Eu tenho interesse grande no LIG, em particular nas equipes AMA - Analyse de données, Modélisation et Apprentissage automatique e GETALP - Groupe d’Étude en Traduction Automatique/Traitement Automatisé des Langues et de la Parole. A última equipe é bem interessante pois eu estou trabalhando com processamento de linguagem natural (NLP) na minha IC e estou gostando bastante sobre o tópico.
Com o ensino especializado mas sem abandonar o lado humano dos alunos, ao mesmo tempo que possui uma pesquisa bem variada e com assuntos muito interessantes, a Ensimag é a minha terceira opção. Porém, juntamente com a Supélec, ela está bem próxima de ser a minha primeira opção.
Como quarta opção eu escolhi a Ecole des Mines de Nancy. A Mines de Nancy é uma das escolas generalistas da França, e assim como na Supélec a especialização é escolhida no último ano. O Départment Génie Industriel et Mathématiques Appliquées é o mais adequado ao meu perfil, pois haverá matérias para lidar com muitos dados, computação científica, etc. Os membros do departamento são especializados em probabilidade, estatística, otimização, tratamento de imagens, entre outros assuntos. Como essas especialidades também são os meus interesses, eu acredito que a pesquisa que eu faria na Mines de Nancy seria bem produtiva também.
Como quinta opção a minha escolha foi a Ecole des Mines de Saint-Étienne. Lá se escolhe a especialização logo ao entrar. No caso, a Ingénieur Spécialité Microélectronique et Informatique é a que mais se encaixa no meu perfil. Apesar de não ser tão focada em estatística como as outras 4 escolhas, essa especialização em microeletrônica e informática me permitiria ter um impacto maior nos cenários onde há microeletrônica com ciência de dados. No Brasil, temos como exemplo a MVISIA, que juntou a inteligência artificial, a mecatrônica e sistemas embarcados para realizar controles industriais de forma automática e eficiente.
A terceira etapa
A terceira etapa depende só das universidades lá fora. Na minha época, só as Centrales e as do grupo ParisTech tinham isso. Eu tive que fazer algumas provas de exatas em nível de faculdade, mas como estou acostumado com o caos, consegui pegar um exemplo de prova e estudar bastante. Nisso é bem parecido com a Poli, mas possivelmente com mais matemática pura com demonstrações ao invés de só aplicação.
Tirando isso,quase todas as dicas da segunda etapa também se aplicam aqui. Por exemplo, pediram outro texto parecido com o plano profissional (“carta de motivação”) e outra entrevista.
Eu tinha estudado só 2 meses de francês na época (apesar de ter conseguido um DELF B1 com isso), então estava beeem enferrujado para fazer uma entrevista em francês. Eles deixam fazer em inglês sem problemas, mas claro que mostrar que você sabe algum francês é um bom sinal.
Estava conversando com uma galera que ia fazer a entrevista também, e uma das pessoas que fez e saiu da entrevista comentou que, se você falar que sabe um pouco de francês, iriam pedir pra se apresentar de forma bem básica. Eu fiz um mini roteiro pra mim mesmo e fiquei ensaiando sozinho, enquanto aguardava a minha vez.
Meu plano profissional pros franceses ficou assim (note que está em inglês, não em francês):
Plano profissional pros gringos
Dear Paristech committee, Through this letter I intend to explain my professional project, why I chose France and my options inside Paristech.I am currently doing a BSc in Electrical Engineering. I have been focusing my graduation on applied mathematics and computer science. I was able to achieve a 9.5/10 in “Numerical Methods and Applications” and I chose optionals subjects about those topics, like “Pattern Recognition and Computer Vision” and “Reality and Probability: Simulations to Make Sense of the World”. However, I have been studying a lot of other subjects which envolve Signals(waves, linear systems, digital processing), Electronics, Networks and Communications, Control Systems, etc, that I also enjoy studying. I haven’t chosen my specialization yet, it will happen later in this semester.
I chose to pursue a double degree in France because science and education have a high value in France’s culture. It is highlighted by a lot of famous scientists that I studied during my life: Fourier, Laplace, Ampère, Coulomb, Pascal, Cauchy, Lagrange, Lavoisier, Poisson, Marie Curie, Louis Pasteur, among many others. Even Artur Avila, the first Brazillian to receive the Fields Medal, has also a French citizenship. France alone has already won 12 Field Medals, which is very impressive.
In Brazil, science and education are not given the priority that they should. We often see budget cuts on education and research and it also happened with other presidents, because it is a cultural problem: Brazilians in general do not value education and science.
However, I have always given great value to them. I really believe that through studies we can be better human begins and it is amazing how we are advancing technologically. I became a volunteer teacher at “Cursinho FGV” and a volunteer “Plantonista” (a “plantonista” helps students by answering their questions and explaining exercises) at “Cursinho da Poli” because I want to spread out those values to other students. I got a Silver medal at OBMEP because studying is important for me and I like to try my best, to achieve the best.
Thus, I feel it would be nice to live and study in France due to its culture.
I intend to work as a researcher at USP in some area related to Data Science. This year, I wrote a paper with a MSc student and my advisor. This paper was accepted in ENIAC 2019, a Brazilian conference about artificial and computational intelligence which will take place from 15th October to 19th October. The fact I was a Teaching Assistant in two subjects and I am a volunteer teacher at Cursinho FGV shows I that I am preparing myself to teach too.
Altough USP is considered the best university from Brazil by many people, the course BSc in Electrical Engineering is a bit outdated in the sense that it does not have a specialization in data science. Most subjects about it are divided among the specialities inside Electrical Engineering or they are available only for MSc and PhD students.
I chose Paristech because I aim for the best. My 3 options for Paristech (Télécom, ENSAE and ENSTA) have specializations in Data Science. All of them have impressive teachers working on public sector (like Anna Simoni from ENSAE, who received a bronze medal from CNRS or on private sector (like Marco Cuturi from ENSAE who works at Google Brain. Furthermore, those Grande Écoles are among the best in France in Data Science.
I feel that the biggest difference between them is what they focus in Data Science. Télécom seems to be more focused in Computer Science, while ENSAE seems to be more focused in Statistics and ENSTA has a generalist aspect.
Due to the creation of IP Paris, which my 3 options for Paristech will be part of, I have some doubts about what paths I will be able to choose. Are they the ones from IP Paris site? If so, they will be very similar to the one’s available from each Paristech school?
However, I am sure it will be a high quality master.
(é engraçado ver em retrospectiva como o final do meu texto foi fraco, eu tinha bastante dificuldade em finalizar textos antigamente, também é curioso ver vários erros ortográficos).
Resumo sobre o processo seletivo na Poli USP
Não precisa ser perfeito. Tudo bem ter e mostrar que houve dificuldades, o mais relevante é mostrar como você superou os problemas do passado e como vai aguentar o tranco do intercâmbio. Em particular:
- Dá pra passar com notas ruins, mas não espere bolsa.
- Não há uma “atividade extracurricular necessária pro DD”. O mais importante é como você apresenta a sua narrativa do passado e do futuro.
- Mostre que você é esforçado e que você vai aguentar o intercâmbio até o final, aconteça o que acontecer.